Somos o 9.º A da Escola EBI c/JI Cidade de Castelo Branco. Neste blog, publicaremos os nossos trabalhos realizados no âmbito da disciplina de Área de Projecto.

20
Abr 10

“Chamo-me José Mendes e fui condutor, na guerra, em Moçambique. Partimos de Lisboa, a 4 de Dezembro de 1971, a bordo do barco Pátria. Éramos 12 companhias militares, com 300 toneladas de munições e mais de 100 camiões e ainda muitos civis.

Foram 28 dias de viagem. Passámos o Natal e Ano Novo, numa ansiedade terrível, naquele barco que me levaria ao desconhecido perigo desembarcamos em Porto Amélia. Daí seguimos de fragata militar para Mocimbôa da Praia, onde fiquei numa companhia de transportes de Moeda que fazia o abastecimento, na região de Cabo Delgado.

Íamos carregar a Macala. Levávamos os caixões dos mortos e, apesar de sermos acompanhados por 4 pelotões a picar a estrada à nossa frente, em todas as viagens havia pelo menos um carro minado. Éramos 12 condutores. Fazíamos uma média de 40 km por semana e era quando as viagens corriam bem. Cada viagem demorava entre 3 a 4 semanas.

Éramos atacados com morteiros mísseis 122 que nós não tínhamos. A primeira vez que fomos atacados ainda éramos acompanhados por uma companhia dos velhos. Dois meses depois de lá estar, rebentou uma emboscada e ficou tudo desorientado a gritar. Um alferes, lá atrás, chamava por mim, virei-me e vi que ele tinha um tiro num joelho e o Mendes, meu amigo, tinha um enorme buraco nas costas. Estava tudo maluco, ninguém conseguiu utilizar as munições que tínhamos. Tivemos vários mortos e feridos.

A primeira mina que rebentou, no meu camião, foi a 7 de Junho de 1972 e, no dia 2 de Outubro do mesmo ano, tornei a ir pelo ar, com duas minas comandadas, uma à frente a outra na traseira do camião, mas só tive um arranhão. Em cada viagem, eram vinte, trinta e quarenta minas que rebentavam, emboscadas e ataques todos os dias. No mês de Dezembro em 1972, foram dois dias e duas noites sempre debaixo de fogo. No dia 29 de Fevereiro, a minha terceira mina, morreram dois alferes e eu fiquei alagado de terra até a cintura, agarrado ao volante e com os ouvidos a sangrar. Ao mesmo tempo, rebentou um ataque. A nossa missão não era atirar, quem nos defendia era a companhia de atiradores 34-64 que nos acompanhava.

A água íamos buscá-la aos rios Niassa e Chito. A alimentação era difícil, mas nós, os condutores, chegávamos a roubar bacalhau e batatas que transportávamos e dávamos aos cozinheiros, para cozinharem e comíamos com eles e com os superiores. Os frigoríficos eram a petróleo.

Ganhava 1200 escudos por mês e os atiradores 700 escudos que gastávamos imediatamente, pois no dia seguinte podíamos já estar mortos.

O carro que tive mais tempo foi 6 meses. Por fim, comecei a entrar em stress, estava psicologicamente mal, reagia a tudo. Um colega amigo disse-me algo de que não gostei, dei-lhe logo com um martelo num ombro e parti-lhe a clavícula. Esperava ser castigado, mas fui enviado para Nampula, 2 meses dispensado de qualquer serviço.

Por fim, passámos os últimos 6 meses em Nova Freixo. Era mais calmo. Chegara a hora da partida e, depois de viagens em aviões militares, chegámos a Lisboa, no dia 2 de Abril de 1974. Passados poucos dias, fiquei com o paludismo que os médicos não sabiam tratar. Foi um amigo que me disse que em Idanha-a-Nova havia quem me tratasse.

 

 

 

 

“Este buraco foi a minha casa, nos últimos 2 meses que passei no mato.”

 

 

Foto mandada por José Mendes. Por detrás, dizia: “Este é o carro que tira o sono aos condutores.”

 

 

Joel  Cortes

publicado por conta-mehistorias às 15:27

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